Comando Vermelho expande domínio em cidades de MT, diz estudo

Comando Vermelho expande domínio em cidades de MT, diz estudo

Dados da terceira edição das Cartografias da Violência na Amazônia, produzido pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pelo Instituto Mãe Crioula, apontam que, em meio à expansão do crime organizado na busca pelo controle de territórios e recursos naturais, 3 de cada 10 cidades da Amazônia Legal têm presença de ao menos uma facção criminosa.

Dos 772 municípios na região, segundo o estudo, 260 convivem com a ação desses grupos.

Nova Santa Helena (622 km ao Norte de Cuiabá), é considerada a sétima cidade mais violenta da Amazônia Legal, com 102,3 óbitos por 1.000 habitantes.

Lá foi registrada a presença da Tropa do Castelar, uma dissidência do Comando Vermelho com perfil mais jovem e mais violento.

A também mato-grossense São José do Rio Claro (315 km ao Norte da Capital), oitava mais violenta da região, com 100,1 casos a cada 1.000 habitantes, tem seus 14.911 habitantes convivendo com CV e o Primeiro Comando da Capital (PCC).

O levantamento indica que, em números, o Comando Vermelho, surgido no Rio de Janeiro, está sozinho em 129 cidades da Amazônia Legal.

Já a facção paulista PCC tem 28 cidades sob seu domínio.

Outras 85 cidades têm presença de duas ou mais facções, segundo o mapeamento feito entre janeiro e setembro deste ano.

Segundo o estudo, a separação entre os grupos de tráfico de drogas e crimes ambientais tem sido borrada nos últimos anos.

Um exemplo é a entrada do PCC, segundo a publicação, no garimpo ilegal de ouro da Terra Indígena Yanomami, que se estende por Roraima e Amazonas.

A exploração de minérios como cassiterita e ouro pode ter atraído integrantes da facção como seguranças.

Mas relatos de pessoas envolvidas no garimpo remontam a chegada da facção, assim como os concorrentes do CV, ao período entre 2013 e 2015, diz o estudo.

Hoje, segundo relatos colhidos no documento, pode haver inclusive uma divisão de classes.

Garimpeiros que fazem o trabalho direto nos rios são apontados como “velhos” e “trabalhadores”, e os “bandidos” ficam responsáveis pelas negociações de ouro, drogas e armas.

Uma hipótese da publicação para o crescimento das facções em solo amazônico é o modelo da alianças e adesões entre grupos dentro das prisões, que amplia as fileiras do crime organizado.

Essa medida também acaba por enfraquecer grupos locais por meio de fusões ou incorporações, como ocorreu, segundo o texto, com o Bonde dos 13, do Acre, a Família Terror do Amapá e a União Criminosa do Amapá.

No caso do Bonde dos 13, o grupo é apoiado pelo PCC na tentativa de fazer frente ao domínio do CV em quase todo o território acreano.

Por outro lado, outros grupos locais mantêm uma presença relevante, como o Bonde dos 40, que está sozinho em dez cidades maranhenses. Em outras seis, divide o espaço com o CV, e em Porto Franco, Alto Alegre do Maranhão e Santa Inês, com a facção do Rio de Janeiro e também o PCC.

A outra hipótese para a expansão do crime organizado na Amazônia é o fato de a região ser uma rota obrigatória para redes de mercado de drogas.

Nessa logística do tráfico, portos como o de Manaus, de Vila do Conde, em Barcarena, e o de Santarém, oferecem uma entrada direta no trânsito global da droga rumo aos países consumidores.

Parte do termômetro para a presença das facções nos territórios é a apreensão de drogas, que tiveram alta entre 2019 e 2023.

Foram 70 toneladas de cocaína apreendidas na região em 2023, mais que o triplo do que as 21,6 toneladas apreendidas em 2022.

O pico recente foi em 2022, com 93 toneladas recolhidas por forças de segurança estaduais e federais, incluindo as Forças Armadas.

Já as apreensões de maconha cresceram continuamente ao longo desse período, chegando a 166,9 toneladas em 2023, mais que o dobro do que as 75,5 toneladas registradas em 2022.

Embora o estudo considere a possibilidade de uma estabilização na violência após o estabelecimento de uma facção, dissidências podem elevar os níveis de mortes violentas intencionais, indicador usado pela publicação que considera vítimas de homicídios dolosos, latrocínios, lesões corporais seguidas de morte e mortes causadas por agentes policiais.

Veja as 10 cidades com maiores taxas trienais (2021-2023) de mortes violentas intencionais na Amazônia Legal:

Cumaru do Norte (PA) – 141,3

Abel Figueiredo (PA) – 115,5

Mocajuba (PA) – 110,4

Novo Progresso (PA) – 102,7

Nova Santa Helena (MT) – 102,3

Iranduba (AM) – 102,3

Calçoene (AP) – 100,8

São José do Rio Claro (MT) – 100,1

Nova Maringá (MT) – 96,5

Floresta do Araguaia (PA) – 93,2

Com reportagem de Lucas Lacerda, da Folha de S. Paulo/DC

 

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